Amazônia Negra: como o enredo da Mangueira quer ampliar a narrativa sobre a floresta
06/02/2026
(Foto: Reprodução) Enredo e Samba: Mangueira 2026
A Floresta Amazônica que a Mangueira quer mostrar tem rosto, memória e identidade negra. No Carnaval 2026, a Estação Primeira aposta em um enredo que mergulha na chamada Amazônia Negra, destacando a trajetória de Mestre Sacaca como símbolo de saber ancestral, resistência cultural e produção de conhecimento fora dos livros.
Quando se fala em Amazônia, ainda é comum que o imaginário brasileiro associe o território apenas à floresta ou às populações indígenas, apagando a presença histórica negra na região. O enredo parte justamente desse silêncio.
A proposta é revelar uma Amazônia construída pelo encontro entre povos indígenas e populações negras, marcada pela oralidade, pelas práticas de cura, pelos rituais, pelas festas e pela relação cotidiana com a terra.
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Mestre Sacaca surge como figura central dessa narrativa. Mais do que curandeiro e conhecedor das ervas, ele foi um articulador cultural e político, alguém que afirmava o valor dos saberes transmitidos pela experiência e pela escuta dos mais velhos.
Raimundo dos Santos Souza, o mestre Sacaca
Arquivo
Na lógica da Amazônia Negra, aprender não é apenas estudar, segundo a sinopse do enredo: é observar, viver, experimentar e compartilhar.
O enredo também rompe com a ideia de que a Amazônia é só floresta. A Mangueira pretende mostrar que Amazônia Negra também é urbana e pulsa nas cidades. Em Macapá, bairros como Laguinho e Favela se tornaram espaços fundamentais da vida negra, onde religiosidade, cultura e política se misturam.
Manifestações culturais
As manifestações culturais ocupam papel central nessa construção. Marabaixo, batuque, carnaval e festejos populares aparecem como territórios de memória e identidade coletiva.
Sacaca dedicou a vida ao fortalecimento dessas práticas, entendendo-as como espaços de continuidade histórica.
A dimensão política também atravessa o desfile. A participação de Sacaca na fundação da União dos Negros do Amapá revela uma trajetória de luta por reconhecimento e visibilidade em um estado aonde grande parte da população se identifica como negra, parda ou indígena.
O enredo propõe uma revisão de narrativa. Em vez de uma Amazônia vazia ou homogênea, a escola quer apresentar um território plural, vivo e diverso.
“Ao exaltar a Amazônia Negra, a Mangueira, essa ilustre contadora de histórias do Brasil, exalta o entrelaçamento entre as culturas indígenas e as culturas negras do norte do país, apresentando como essas duas cosmo percepções se integraram dentro desse território tão importante que é a Amazônia e se mantiveram vivas, apesar das infinitas tentativas de apagamento e colonização”, explica a pesquisadora da escola, Sthefanye Paes, doutora em Antropologia Social pelo Museu Nacional/UFRJ.
Para ela, o desfile tem também um papel pedagógico.
“A importância dessa apresentação é ampliar o entendimento dos brasileiros sobre as diferentes culturas, saberes, práticas e modos de vida que constituem a Amazônia enquanto um território vivo, plural e diverso.”
Xamã Babalaô
Na Avenida, Mestre Sacaca aparece como guia simbólico dessa travessia entre mundos, representado no desfile mangueirense na figura do encantado Xamã Babalaô.
Mais do que revisitar o passado, a Mangueira propõe uma pergunta ao presente: quais histórias ainda seguem invisíveis quando se fala em Amazônia?
Na resposta, a Verde e Rosa aposta na força da memória, da coletividade e da resistência para lembrar que a floresta também é feita de gente, cultura e herança negra.
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